terça-feira, 27 de abril de 2010

Por Marielle Sant’Ana


Edgar Franco é um artista multimídia e tem experimentado criar trabalhos para suportes hipermidiáticos, batizando essa linguagem híbrida de quadrinhos e hipermídia de “HQtrônicas”(histórias em quadrinhos eletrônicas), cuja pesquisa foi desenvolvida em seu mestrado. Um de seus trabalhos intitulado “NeoMaso Prometeu”, recebeu menção honrosa no 13º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica (Sesc Pompéia/2001). Sua pesquisa de doutorado “Perspectivas pós-humanas nas ciberartes” foi premiada no programa "Rumos Pesquisa 2003" do Centro Itaú Cultural, em São Paulo.
Para entendermos o pós-humano e o entrelaçamento deste tema com a arte, segue a entrevista concedida, via correio eletrônico, pelo professor e artista Edgar Franco:

Marielle Sant’Ana: O conceito do termo ‘humano’ remete-se ao próprio homem enquanto ser biológico. ‘Pós-humano’ refere-se a algo além do humano, isto é, a extensão da natureza, o homem, em junção com a tecnologia, a máquina. Como surgiu o seu interesse pelo pós-humano na arte?
Edgar Franco: O termo pós-humano é motivo de muitas controvérsias e definições diversas. A compartimentação e corporativismo das áreas acadêmicas acabam por gerar muitas visões divergentes sobre o que pode vir a ser o pós-humano. Na verdade, o termo foi inventado pelo intelectual norte-americano de ascendência egípcia Ihab Hassan em um ensaio publicado em 1977 na Georgia Review intitulado Prometeus as Performer: Toward a Posthumanist Culture. O autor acreditava que esse neologismo poderia ser usado como mais uma "imagem do recorrente ódio do homem por si mesmo". A definição de pós-humano que mais me interessa é a que trata de uma possível ruptura na compreensão tradicional do que consideramos "humano" a partir das mudanças de ordem física e cognitiva que os processos hipertecnológicos - como biotecnologia, nanorobótica, nanoengenharia, prostética, conexão em rede, robótica e realidade virtual - estão produzindo em nossa espécie e de uma perspectiva de aceleração dessas mudanças.
As artes narrativas tradicionalmente já discutem a hibridação do humano desde o início da expansão tecnocientífica. O primeiro romance de ficção científica da história, Frankenstein, da autora inglesa Mary Shelley, já tratava da criação de um ser que mixava partes de muitos outros humanos para sua criação, e era um produto da ciência. Talvez esse seja um dos precursores da concepção atual de pós-humano. No cinema, monstros híbridos humanimais ficaram notórios também, como nas adaptações do célebre romance "A Ilha do Dr. Moreau" de H.G. Wells, um trabalho fenomenal que antecipou experimentos recentes da tecnociência como a criação da primeira ovelha transgênica que inclui 15% de genética humana.
Enfim, acho que o meu interesse pelo universo do pós-humano nas artes vem da infância, desde quando comecei a fascinar-me pela literatura, HQ e cinema de FC (Ficção Científica). Mas não é só nas artes narrativas que o pós-humano tem gerado trabalhos contundentes, também artistas da chamada ciberarte têm utilizado inclusive de tecnologias como transgenia e robótica para fazerem reflexões sobre a condição pós-humana, como Stelarc que implantou uma terceira orelha em seu braço esquerdo, e Eduardo Kac que produziu uma coelha transgênica fluorescente e objetivava transformá-la em seu animal de estimação.
Sou adepto da ideia de que os artistas funcionam como "antenas da raça" - uma concepção do genial teórico da comunicação canadense McLuhan - ou seja, os artistas têm essa capacidade de vislumbrar o porvir e esse é um dos papéis fundamentais da arte no seio da cultura ocidental. Infelizmente, poucos compreendem essa importância seminal da arte e ela continua sendo vista como "adereço" pela maioria dos setores da sociedade. E não confundamos aqui cultura de massa, feita para alimentar a indústria do entretenimento com arte.
                             Edgar Franco em foto para o projeto musical Posthuman Tantra

MS: Quadrinhos como o ByoCiberDrama e Transessência, além do projeto musical da banda Posthuman Tantra são alguns de suas manifestações artísticas que se inspiram no pós-humano. De que forma este conceito estrutura sua arte?                               
EF: Minha obra multimidiática tem sido estruturada, desde 2000, sob o leque de um universo ficcional transmídia chamado de "Aurora Pós-humana". Esse mundo de ficção científica evoluiu muito no período de minha pesquisa de doutorado em artes na USP e foi inspirado pelos artistas, cientistas, tecnólogos e filósofos que refletem sobre o futuro da espécie humana a partir de suas relações com os processos de aceleração hipertecnológica. Também sou influenciado pelos reflexos do pós-humano na cultura pop, com o surgimento de filmes, animações, etc., e de seitas como a dos Extropianos, Transhumanistas, Prometeianos e Raelianos. Estes últimos, por exemplo, crêem na clonagem como possibilidade de acesso à vida eterna, nos alimentos transgênicos como responsáveis futuros pelo fim da fome no planeta, e na nanotecnologia e robótica como panacéia que eliminará o trabalho humano, liderados pelo pseudo-guru Raël, um hedonista que constrói todo seu discurso a partir das previsões mais otimistas da ciência.            

 Nesse caldo fervilhante de polêmicas, previsões e vivências, surgiu, ainda no ano de 2000, o germe desse universo poético-ficcional que posteriormente batizei de "Aurora Pós-humana". A idéia inicial foi imaginar um futuro, não muito distante, onde a maioria das proposições da ciência & tecnologia de ponta fossem uma realidade trivial, e a raça humana já tivesse passado por uma ruptura brusca de valores, de forma (física) e conteúdo (ideológico/religioso/social/cultural). Esse universo foi batizado inicialmente de "Aurora Biocibertecnológica"; um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador fosse algo possível e cotidiano, onde milhares de pessoas abandonarão seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Imaginei também que neste futuro hipotético a bioengenharia teria avançado tanto que permitisse a hibridização genética entre humanos e animais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Finalmente imaginei que estas duas "espécies" pós-humanas tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo enquanto uma pequena parcela da população, uma casta oprimida e em vias de extinção, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças.                                                                                                                                                                    

Dessas três raças que convivem nesse planeta Terra futuro, duas são, o que podemos dizer, pós-humanas, sendo elas os "Extropianos" (seres abiológicos, resultado do upload da consciência para chips de computador) e os "Tecnogenéticos" (seres híbridos de humano e animal, frutos do avanço da biotecnologia e nanoengenharia). Tanto Extropianos, quanto Tecnogenéticos contam com o auxílio respectivamente de "Golens de Silício" – robôs com inteligência artificial avançada (alguns reivindicam a igualdade perante as outras raças) e "Golens Orgânicos" – robôs biológicos, serventes dos Tecnogenéticos. A última raça presente nesse contexto é a dos "Resistentes", seres humanos no "sentido tradicional", raça em extinção, correspondendo a menos de 5% da população do planeta.

      
 Ilustração por Edgar Franco

                Este universo tem sido aos poucos detalhado com dezenas de parâmetros e características. Trata-se de um work in progress que toma como base todas as prospecções da ciência e das artes de ponta para reestruturar seus parâmetros. A partir dele já foram desenvolvidos uma série de trabalhos artísticos, em diversas mídias e suportes, atualmente outras obras estão em andamento.“ByoCiberDrama" é um álbum de quadrinhos que traz a história de um resistente. Ainda nos quadrinhos tenho a série de gibis "Artlectos e Pós-humanos", com HQs curtas que se passam no contexto de meu universo ficcional. O terceiro número, lançado em 2009, recebeu o Troféu Bigorna de melhor publicação Brasileira de Quadrinhos de aventura. No campo das narrativas híbridas, tenho as HQtrônicas (HQs eletrônicas), "Neomaso Prometeu" (Menção honrosa no 13º Festival Videobrasil), "Ariadne e o Labirinto Pós-humano" e "brinGuedoTeCA 2.0". No campo da web arte, tenho o site de vida artificial "O Mito Ômega" (www.mitomega.com), trabalho a série de ilustrações híbridas chamada de "A Era Pós-humana". Criei no ano passado a instalação interativa "Immobile Art" e, finalmente, tenho o projeto musical sci-fi ambient "Posthuman Tantra" que é contratado da gravadora Suíça Legatus Records e estará lançando nesse ano seu segundo CD oficial. Todos esses trabalhos envolvem aspectos diferenciados do universo ficcional da "Aurora Pós-humana".


*Edgar Franco é arquiteto pela UnB (Universidade de Brasília); Mestre em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); Doutor em Artes Plásticas pela ECA/USP; e professor da FAV- UFG - Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

6 comentários:

  1. Marielle, da proxima vez, edita as respostas do entrevistado!!!

    e eu nao entendi bulhufas do que é esse tal de pos-humano no trabalho dele.

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  2. Bárbara, a primeira pergunta já faz uma introdução do termo pós-humano e o entrevistado responde de forma clara e com riqueza de informações.

    Esta entrevista é dirigida para um público supostamente leitor.

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  3. é, pois é, nao ficou claro pra mim. foi isso que eu quis dizer. :D

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  4. Muito boa a entrevista!
    Exclarecedor principalmente a origem do termo "pós-humano". Para quem quiser ter a experiência de uma HQtrônica de Edgar Franco, vejam esta intitulada "Neomaso Prometeu": http://www.cap.eca.usp.br/wawrwt/neomaso/neo-a.html

    Muito massa!

    Uma informação irrelevante: quem fala que os artistas são "as antenas da raça" não é o Marshall McLuhan, e sim Ezra Pound.

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  5. Gostei muito da entrevista. É estranho termos artistas tão grandes assim 'entre nós' (UFG) e nem sabermos...

    Só fiquei com uma dúvida: pós-humanos é só na ficção mesmo? Porque a tecnologia tem ajudado pessoas com membros amputados, por exemplo, colocando um membro 'robótico' no lugar. Essas pessoas são pós-humanas, já que são junção de humano e tecnologia? - pergunta boba, mas realmente queria saber!

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  6. Andrei S. e Silva7 de maio de 2010 12:55

    Eu adooooro esse tema! Existe um livro que de Antropologia que se chama "Antropologia do Ciborgue: vertigens do pós humano" e que é um dos melhores do ponto de vista acadêmico que trabalha com esse tema. A percepção do pós-humano é algo que acompanha o ser humano desde a pré-história, mas que só tomou forma no período moderno. O homem moderno sonha em transformar seu corpo em uma máquina, os avanços ciêntificos parecem caminhar cada vez mais nessa direção.
    Não existe muita literatura acadêmica sobre esse tema, mas de material ficcional existem muitas coisas. Livros, filmes, histórias em quadrinhos, uma série de obras que demonstram a nossa fixação por explorar os limites entre o corpo e a máquina, e as maneiras como ambos podem coexistir. Eu deixo como indicação pra quem se interessa por esse dois longas :Blade Runner" -que eu acredito muitos já assistiram- que trata muito bem desse tema do pós humano, e "Ghost in the Shell", que é uma animação japonesa fantástica e super densa que trabalha o assunto de maneira muito profunda. Seu enredo foi a maior influência para os irmãos Wachouwski criarem Matrix. Abaixo um link no youtube

    http://www.youtube.com/watch?v=kIf2l_UMLYk

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